Quando pensamos em videogames, muita gente ainda imagina
apenas lazer, descontração ou, no máximo, uma forma divertida de socializar com
amigos. Para alguns, jogos digitais até carregam o estigma de vício ou
comportamento prejudicial. Mas essa visão está ficando para trás. Dentro do
grande universo chamado “gaming” existe uma diversidade enorme de experiências
— ação frenética, estratégia complexa, narrativas profundas, quebra-cabeças inteligentes — e cada gênero ativa sistemas cognitivos diferentes. É justamente
aí que a ciência começa a revelar coisas fascinantes.
Pesquisadores têm identificado duas principais maneiras
pelas quais os games podem beneficiar a saúde cerebral. A primeira rota é
psicológica: jogar envolve imaginação, planejamento e tomada de decisões
complexas. Não à toa, durante a pandemia de COVID-19, um estudo com mais de 90
mil pessoas no Japão mostrou que o gameplay moderado estava associado a melhora
da saúde mental e redução do estresse em um período crítico, quando todo mundo
precisava de algum tipo de escape emocional e conexão social. A segunda rota é
biológica, e está relacionada à plasticidade neural — a incrível capacidade que
o cérebro tem de reorganizar suas conexões quando aprendemos algo novo. Certos
tipos de jogos, especialmente os que exigem atenção contínua, respostas rápidas
e flexibilidade cognitiva, parecem funcionar como verdadeiros treinos para o
cérebro.
Nos últimos anos, a neurociência cognitiva tem mostrado que
jogos de ação, em particular, não são atividades neutras. Eles aumentam o foco,
melhoram a acuidade visual e remodelam redes neurais envolvidas no controle da
atenção. Essas mudanças são mais evidentes nas redes frontoparietal e
parieto-occipital, regiões essenciais para tomada de decisão e integração
sensorial. Um detalhe curioso: a rede frontoparietal é uma das primeiras a
sofrer declínio com o envelhecimento. Se o videogame fortalece essa região,
isso pode abrir caminho para uma forma inesperada de resiliência cognitiva na
velhice. Jogos, que antes eram vistos apenas como entretenimento, começam a
assumir um papel muito mais significativo.
Para testar essa ideia, pesquisadores desenvolveram um
modelo chamado “relógio cerebral”, publicado recentemente na Nature
Communications (https://www.nature.com/articles/s41467-025-64173-9)
. Eles analisaram dados de MEG e EEG (Magnetoencefalografia e Eletroencefalografia)
de mais de 1.400 participantes, incluindo jogadores profissionais de StarCraft
II, iniciantes e pessoas que passaram por um treinamento de 30 horas no mesmo
jogo. StarCraft II, clássico da Blizzard, exige controle de tropas, gestão de
recursos, leitura tática do mapa e decisões sob tempo limitado — praticamente
uma sinfonia cognitiva. Os resultados foram impressionantes: jogadores
experientes apresentaram cérebros biologicamente mais jovens do que sua idade
real e, ainda mais surpreendente, iniciantes tiveram redução mensurável da
“idade cerebral” após apenas 30 horas de treinamento.
Isso é plasticidade neural em ação. O estudo também mostrou
que a experiência com videogames fortaleceu conexões cerebrais vulneráveis ao
envelhecimento, aumentou a eficiência das redes neurais e ampliou a
conectividade global do cérebro. E um detalhe interessante: quanto maior a
imersão do jogador, mais jovem era a idade cerebral estimada. Ou seja, as
experiências de jogo bem construídas têm potencial para proteger o cérebro de
forma direta.
Quando falamos de videogames, duas imagens ainda persistem no senso comum. A primeira é a do jogador passivo, “perdendo tempo” diante da tela — crítica que desapareceria se, no lugar do controle, estivesse um tabuleiro de xadrez ou um livro. A segunda é a ideia de que gamers são adolescentes, quando a idade média atual gira em torno dos 36 anos. Hoje, games são uma atividade cultural mainstream, atravessando gerações inteiras.
Claro,
isso não significa que tudo é positivo: excesso ou jogatina compulsiva podem
estar associados a problemas físicos e mentais. Mas, muitas vezes, esses
comportamentos refletem condições prévias, como ansiedade ou depressão — não
exatamente o jogo como causa.
A moderação continua sendo essencial. A saúde cerebral é
influenciada por sono adequado, alimentação, exercícios, convivência social e
um conjunto amplo de fatores. Dentro desse contexto, quando usados com cuidado,
os videogames podem complementar abordagens tradicionais de bem-estar. Isso já
está acontecendo: jogos de treinamento cognitivo, plataformas de reabilitação e
ferramentas educacionais gamificadas estão sendo incorporadas a escolas,
clínicas e programas de saúde, e a lógica por trás disso é simples: quando a
aprendizagem ou a reabilitação são tão envolventes quanto um bom jogo, os
resultados tendem a melhorar.
Na era digital, os videogames deixam de ser apenas entretenimento para se tornarem aliados potentes da ciência, da educação e da saúde. E quanto mais entendermos esses mecanismos, mais oportunidades teremos de usar o poder do “jogar” de forma criativa, responsável e transformadora.
Referência:
Coronel-Oliveros,
C., Migeot, J., Lehue, F. et al. Creative experiences and
brain clocks. Nat Commun 16, 8336 (2025).
https://doi.org/10.1038/s41467-025-64173-9

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