Se tem uma franquia que ajudou a definir o que conhecemos hoje como jogos de tiro em terceira pessoa, essa franquia é Gears of War. A série da Microsoft sempre foi conhecida pelo combate pesado, pelo sistema de cobertura e por aquele universo brutal em que a humanidade parece estar sempre a um passo da extinção. Mas, depois de tantos anos acompanhando Marcus Fenix e seus companheiros, finalmente temos a oportunidade de voltar ao momento em que tudo começou.
Gears of War: E-Day nos leva 14 anos antes dos acontecimentos do primeiro jogo, mostrando o início da invasão dos Locust e o colapso de uma civilização que acreditava ter finalmente conquistado a paz. Desenvolvido pela The Coalition e publicado pela Xbox Game Studios, o game aposta em uma narrativa mais cinematográfica, gráficos impressionantes e mudanças importantes na movimentação, trazendo uma nova vida para uma das franquias mais importantes do XBOX.
A história começa depois de um longo e devastador conflito conhecido como Pendulum Wars, ou Guerras Pendulares, no qual a Coalizão de Governos Ordenados, a COG, derrotou a União das Repúblicas Independentes, a UIR. A disputa pelo controle dos recursos naturais de Sera, especialmente a Imulsion, havia deixado marcas profundas na sociedade e nos próprios soldados. A COG é apresentada como uma potência militar extremamente organizada e poderosa, mas que também carrega traços autoritários e uma estrutura bastante rígida. É interessante perceber como o universo de Gears of War sempre teve uma dimensão política por trás de toda a violência, com governos, disputas por recursos e decisões militares que ajudam a explicar como a humanidade chegou àquela situação.
É nesse cenário que encontramos Marcus Fenix e Dominic Santiago, dois soldados que sobreviveram às Guerras Pendulares e agora tentam se adaptar a uma realidade em que o conflito aparentemente terminou. Só que a paz dura pouco. Quando tudo parece estar finalmente entrando nos eixos, uma ameaça completamente diferente emerge das profundezas do planeta. Estamos falando do Dia da Emergência, o famoso E-Day, quando a Horda dos Locusts sai do subterrâneo de Sera e inicia um ataque surpresa devastador contra a humanidade. Milhares dessas criaturas invadem as cidades, destroem estruturas e massacram a população, deixando os sobreviventes sem tempo para entender o que está acontecendo. Segundo a história da franquia, mais de 90% da população de Sera morreu nas primeiras 24 horas da invasão. É um cenário apocalíptico que ajuda a entender por que os acontecimentos posteriores de Gears of War são tão marcados pelo trauma, pela perda e pela luta desesperada pela sobrevivência.
E-Day acompanha justamente esse começo do pesadelo, mostrando a queda de Kalona, uma nova cidade dentro do universo da franquia. Em vez de simplesmente colocar o jogador para enfrentar ondas de inimigos, o game procura transmitir a sensação de que estamos presenciando o fim do mundo conhecido pelos personagens. Marcus e Dom ainda não são exatamente as figuras endurecidas que conhecemos dos jogos anteriores. Eles são soldados experientes, mas precisam lidar com uma ameaça para a qual ninguém estava preparado. Ver essa relação se desenvolver em meio ao caos é um dos pontos mais interessantes da campanha, principalmente para quem já acompanha a franquia há anos. A história não trata apenas de matar Locusts, mas também de mostrar como dois personagens se tornam irmãos de batalha em uma situação na qual confiar uns nos outros pode ser a única maneira de continuar vivos.
O diretor criativo do estúdio, Matt Searcy, já destacou que os acontecimentos de E-Day se desenrolam quase como em um filme de zumbis. E essa proposta faz bastante sentido quando pensamos no que os humanos estão enfrentando: criaturas desconhecidas surgindo debaixo da terra, ataques inesperados e cidades inteiras entrando em colapso. A sensação de segurança desaparece rapidamente, e o jogo consegue transformar esse contexto em uma experiência muito mais dramática do que simplesmente avançar por corredores eliminando inimigos.
Visualmente, E-Day é um dos jogos mais impressionantes da franquia. Diferentemente de Gears 5, que utilizava a Unreal Engine 4, o novo título foi desenvolvido inteiramente na Unreal Engine 5, e a diferença é perceptível. A iluminação, os materiais, os cenários destruídos e a apresentação das criaturas ajudam a construir um mundo muito mais detalhado e convincente. Não é apenas uma questão de colocar mais polígonos na tela: existe um cuidado maior com a composição das cenas, a ambientação e a forma como os acontecimentos são apresentados ao jogador. O resultado é um game que parece muito mais preocupado em contar sua história por meio das imagens, sem depender o tempo todo de diálogos explicativos.
Aliás, arrisco dizer que este é o Gears of War mais cinematográfico até agora. As cenas de corte possuem enquadramentos muito bem trabalhados, com movimentos de câmera e diálogos que, em alguns momentos, chegam a lembrar a linguagem narrativa dos grandes exclusivos da Sony. As animações e a direção das cenas ajudam a reforçar o impacto dos acontecimentos, fazendo com que a campanha pareça uma grande produção de ação e ficção científica. E, considerando que estamos acompanhando o início de uma catástrofe que mudará completamente o destino da humanidade, essa abordagem funciona muito bem.
Na jogabilidade, E-Day mantém a essência que tornou a série famosa, com o combate em terceira pessoa baseado em cobertura, armas pesadas e confrontos violentos contra inimigos que não costumam facilitar a vida do jogador. Entretanto, temos mudanças importantes na movimentação. Agora é possível correr com mais facilidade, saltar obstáculos de maneira mais livre e explorar o cenário com uma mobilidade maior. São ajustes que podem parecer pequenos no papel, mas fazem diferença durante os tiroteios, principalmente quando precisamos escapar de uma posição desfavorável ou avançar rapidamente contra um grupo de Locusts. Eu gostei bastante dessa evolução, porque sempre achei que alguns aspectos dos jogos antigos ficaram um pouco datados com o passar do tempo. Recentemente, joguei o remake Gears of War: Reloaded e, apesar de continuar sendo um ótimo jogo, senti justamente esse peso de uma estrutura que já não é tão fluida quando comparada aos shooters modernos. E-Day consegue preservar a identidade clássica da franquia sem ficar tão preso às limitações de sua época.
Outro aspecto interessante é a presença de áreas mais abertas, com possibilidades de exploração e missões secundárias, algo que já havia aparecido em Gears 5. Essa estrutura permite dar uma pequena respirada entre os combates principais, procurar recursos e descobrir elementos adicionais do cenário. Não estamos falando de um mundo aberto gigantesco, e nem acho que a franquia precise disso, mas essa liberdade extra ajuda a tornar a campanha menos linear sem comprometer o ritmo da narrativa. O jogo ainda sabe quando precisa conduzir o jogador para uma sequência cinematográfica e quando pode deixá-lo explorar um pouco mais antes do próximo confronto. Obviamente vivemos um cansaço da fórmula básica de jogos de mundo aberto.
Uma das mecânicas interessantes foi a possibilidade de encontrar caixas com melhorias para as armas. Conforme avançamos pela campanha, novos espaços para acessórios são desbloqueados, permitindo personalizar os equipamentos e adaptar o arsenal ao nosso estilo de jogo. Essa progressão torna a exploração mais interessante, porque encontrar um recurso escondido pode representar uma melhoria real para aquela arma que você já está acostumado a utilizar. A partir da metade da campanha, se você dedicar algum tempo para vasculhar os cenários, já é possível montar configurações bem interessantes para suas armas favoritas. É um sistema que recompensa a curiosidade e cria uma sensação de evolução sem transformar a experiência em um RPG cheio de números e equipamentos descartáveis.
E, claro, tudo isso funciona muito bem porque o combate continua sendo o coração da experiência. A série sempre teve uma identidade própria graças ao peso das armas, à violência dos confrontos e à necessidade de pensar na posição antes de simplesmente sair correndo pelo cenário. A movimentação mais livre de E-Day não elimina essa característica, mas oferece ferramentas adicionais para lidar com os inimigos. O resultado é um combate que parece mais moderno, mantendo aquela sensação de que cada confronto pode sair do controle rapidamente se você não prestar atenção ao que acontece ao seu redor.
A campanha também oferece suporte para cooperativo online de até quatro jogadores e, nos consoles, para dois jogadores em tela dividida. Infelizmente, a opção de tela dividida não está disponível na versão para PC. Além da campanha, o pacote inclui partidas competitivas em equipes de quatro contra quatro e um novo modo cooperativo para até 12 jogadores chamado Horde Siege. São opções que ampliam a experiência para quem pretende continuar jogando depois de terminar a história, embora o grande destaque de E-Day, para mim, esteja mesmo na campanha e na forma como ela reconstrói o início da guerra contra os Locusts.
No fim, Gears of War: E-Day é uma excelente oportunidade para revisitar uma das franquias mais importantes da história do XBOX. A mudança para a Unreal Engine 5 trouxe um salto visual perceptível, a movimentação está mais fluida e a direção cinematográfica dá mais força à narrativa. Ao mesmo tempo, o game preserva os elementos que fizeram a série conquistar tantos fãs: tiroteios intensos, armas brutais, inimigos ameaçadores e uma humanidade que precisa lutar com tudo o que tem para não desaparecer.
A campanha dura aproximadamente 12 a 15 horas, dependendo do seu ritmo e do quanto você se dedica à exploração, e entrega uma experiência de pura imersão e drama, acompanhando uma civilização obrigada a lutar pela própria existência. Para quem conhece Marcus e Dom desde o início, acompanhar a origem dessa relação tem um peso especial. Para quem está chegando agora, E-Day também funciona como uma porta de entrada para entender por que os Locusts se tornaram uma ameaça tão devastadora. Recomendo bastante Gears of War: E-Day. É um retorno muito bem-vindo, que moderniza a fórmula sem abandonar suas raízes e mostra que ainda há muito espaço para a franquia contar histórias marcantes.
Gears of War: E-Day foi lançado para PC e Xbox Series X|S, com disponibilidade desde o primeiro dia no PC Game Pass e no Game Pass Ultimate. O lançamento também reforça a estratégia da Microsoft de concentrar seus grandes títulos em seu ecossistema de plataformas, embora isso não signifique necessariamente um retorno à exclusividade absoluta de todos os jogos da marca. Independentemente da plataforma, para quem gosta de bons jogos de tiro em terceira pessoa e de campanhas cinematográficas, vale a pena acompanhar essa nova etapa da saga.
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