WONDERLANG: Excelente RPG que ensina idiomas

 

Arte do jogo Wonderlang - Divulgação/Bair Games

WonderLang é um daqueles jogos que conseguem fazer uma coisa que, à primeira vista, parece difícil: transformar estudar um idioma em uma atividade realmente divertida. Em vez de colocar o jogador diante de uma sequência de exercícios de gramática disfarçados de jogo, ele pega a estrutura de um RPG clássico e faz o aprendizado da língua fazer parte da própria aventura. Você explora, conversa com personagens, resolve missões e quebra-cabeças e, principalmente, precisa compreender e utilizar o idioma para avançar. Desenvolvido pelo francês Jonathan Bariller e autopublicado por seu próprio estúdio, a bair games, WonderLang chegou originalmente em 2025 e atualmente oferece nove idiomas para aprender: inglês americano ou britânico, francês, espanhol da Espanha, alemão, italiano, português brasileiro, coreano, japonês e mandarim. Existem ainda outros idiomas em desenvolvimento por meio de financiamento coletivo.

E olha, a proposta é realmente interessante. WonderLang é construído sobre uma versão bastante modificada do RPG Maker MZ, aquela conhecida ferramenta utilizada para criar RPGs 2D no estilo clássico. Só que aqui o desenvolvedor foi muito além do que normalmente esperamos de um projeto feito nessa engine. O resultado é praticamente uma plataforma de aprendizado de idiomas construída dentro de um RPG, com diálogos interativos, dicionário, explicações gramaticais, reprodução de áudio, minijogos e até suporte a teclados virtuais para idiomas que utilizam alfabetos diferentes.

A interface, aliás, é extremamente fácil de entender. Uma coisa que gostei bastante é que você pode trocar rapidamente entre a sua língua dominante e o idioma que está aprendendo, sem precisar ficar entrando no menu de configurações. Isso é importante porque o jogo consegue acompanhar diferentes níveis de conhecimento. Para quem está começando praticamente do zero existe o Very Beginner Mode, que oferece mais suporte, revisões frequentes e tutoriais obrigatórios no começo da aventura. O conteúdo é organizado em níveis Beginner, A1 e A2, então não espere sair de WonderLang falando fluentemente japonês ou alemão depois de zerar o jogo. A proposta é construir uma base.

E o jogo faz isso colocando o idioma literalmente dentro das mecânicas. Nos diálogos, por exemplo, existe um botão de interrogação que permite analisar as frases e receber explicações sobre gramática e sintaxe. Se apareceu uma palavra que você não conhece, é possível consultá-la praticamente na hora. Também dá para ouvir novamente as falas, revisar palavras novas e até copiar os diálogos para o bloco de notas do próprio jogo ou para outro lugar onde você queira estudar depois.

Esse bloco de notas interno é outra ideia simples, mas muito útil. Durante a aventura você pode anotar palavras, expressões ou aquelas pequenas curiosidades de gramática que aparecem pelo caminho. É quase como carregar um caderno de estudos dentro do RPG, só que sem precisar interromper a partida para procurar papel e caneta.

E aí chegamos ao combate, que talvez seja a parte mais curiosa de WonderLang. O sistema é baseado em turnos e utiliza repetição espaçada para reforçar aquilo que você aprendeu. Só que, em vez de simplesmente escolher uma espada ou uma magia, suas "armas" são palavras. Dependendo da situação, você pode precisar reconhecer uma palavra, traduzi-la, escrevê-la ou até falar. Ou seja, aquele inimigo que você acabou de enfrentar pode ter servido também como uma pequena prova de vocabulário.

A identificação de voz também funciona surpreendentemente bem. Nas partes em que você precisa falar, o jogo consegue reconhecer o que você pronunciou e indicar erros de pronúncia. Para quem está acostumado a estudar apenas lendo e escrevendo, isso adiciona uma camada muito interessante, porque obriga você a realmente colocar o idioma para fora e não apenas reconhecer as palavras na tela.

Depois de determinados diálogos, WonderLang ainda oferece uma oportunidade para revisar aquilo que acabou de aparecer na história. Você pode escrever, ouvir e falar as palavras novamente. É uma maneira inteligente de aproveitar o próprio ritmo da aventura para transformar a revisão em parte da experiência, em vez de simplesmente parar o jogo e abrir uma lista de exercícios.

E é justamente aí que acho que WonderLang acerta. Ele não tenta simplesmente transformar Duolingo em RPG. A ideia é fazer com que o RPG seja o método pelo qual você aprende. A campanha tem mais de 45 horas de conteúdo entre jogo e aprendizado, com mais de 60 personagens e uma série de missões, quebra-cabeças e diálogos construídos ao redor da língua escolhida.

Para quem já estuda o idioma por outros meios, como aulas, livros ou aplicativos, acho que WonderLang funciona muito bem como complemento. Você pode jogar alguns minutos por dia e utilizar a aventura para reforçar aquilo que está aprendendo em outros lugares. Agora, se a ideia é aprender exclusivamente através do jogo, a própria desenvolvedora avisa que a coisa fica mais difícil. A recomendação é jogar cerca de 30 minutos por dia, fazer as revisões opcionais, anotar vocabulário e até utilizar ferramentas externas para consultar aquilo que você não entendeu. E aqui concordo completamente: não existe essa história de "colar" quando o objetivo é aprender. Se você precisou consultar uma palavra no dicionário ou até perguntar para o ChatGPT, você continua aprendendo.

Visualmente, WonderLang segue aquela estética clássica dos RPGs 2D feitos em RPG Maker. O projeto mistura ilustrações produzidas especificamente para o jogo, pacotes licenciados, recursos gratuitos selecionados e algumas artes geradas por inteligência artificial. Segundo o próprio desenvolvedor, existe um esforço progressivo para substituir essas artes de IA por trabalhos de artistas conforme as vendas permitem, o que acho uma decisão bastante positiva para um projeto indie.

Outra coisa interessante é que o jogo não ficou preso aos idiomas ocidentais. Existe suporte para japonês, coreano e mandarim, além de recursos específicos para diferentes sistemas de escrita e até suporte a idiomas escritos da direita para a esquerda. Isso mostra que o projeto foi pensado desde o início como uma plataforma de aprendizado internacional e não simplesmente como um RPG traduzido para algumas línguas.

Você pode comprar uma versão específica, caso queira aprender apenas determinado idioma, ou adquirir a versão poliglota, que reúne todos eles. Pela diferença de preço que encontrei na Steam, particularmente acho a versão poliglota muito mais interessante.

No fim das contas, WonderLang é uma proposta que me surpreendeu bastante. Eu gosto da ideia de usar games como ferramenta de aprendizado, mas aqui o idioma não está simplesmente colocado por cima do jogo: ele está integrado ao combate, aos diálogos, à exploração e à progressão. Você não está fazendo uma prova de vocabulário para depois voltar a jogar. Você está jogando e, para continuar jogando, precisa aprender.

Trailer em Alemão de WonderLang - Reprodução / Bair Games

Para quem já estuda uma língua, acho uma excelente ferramenta complementar. Para quem está começando, pode ser uma maneira muito mais agradável de criar contato diário com o idioma. E para quem é gamer e sempre teve dificuldade de manter disciplina estudando uma língua, talvez transformar a tarefa em uma aventura seja justamente o empurrão que estava faltando.

WonderLang é um RPG simples visualmente, mas bastante ambicioso naquilo que tenta fazer. E, sinceramente, achei uma excelente ideia. Afinal, se a gente já passa dezenas de horas jogando RPG para salvar o mundo, derrotar monstros e aprender centenas de palavras inventadas em línguas élficas, talvez não seja uma má ideia gastar algumas dessas horas aprendendo francês, japonês, inglês ou qualquer outro idioma que possa realmente ser útil depois que o videogame acabar.

Já jogou WonderLang? Acompanhe o BansPodNerd.

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