O cinema nacional vive um momento histórico. O filme Ainda Estou Aqui venceu o Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz, com Fernanda Torres, e conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Já O Agente Secreto vem com algumas indicações ao Oscar e também vencido o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em em filme de Drama, com Wagner Moura.
A pergunta que fica é: esse reconhecimento é fruto do acaso ou resultado de anos de investimento e construção no setor audiovisual brasileiro?
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| Foto da atriz Fernanda Torres e Wagner Moura — Reprodução / AFP |
Governo Bolsonaro
O Brasil possui um histórico recente de políticas públicas que ajudaram a fomentar o audiovisual, como o Fundo Setorial do Audiovisual (destinado ao desenvolvimento de toda a cadeia produtiva do setor) e a Lei Rouanet. No entanto, durante o governo de Jair Bolsonaro, a cultura — incluindo o cinema — viveu seu momento mais preocupante neste século.
O setor sofreu cortes significativos, incluindo uma redução de 43% no orçamento do já mencionado Fundo Setorial do Audiovisual, que chegou ao menor patamar desde 2012. Além disso, o ex-presidente defendeu publicamente que a Agência Nacional do Cinema tivesse um “filtro ideológico” e chegou a ameaçar, em uma livestream, extinguir a agência.
Esse cenário gerou insegurança institucional e impactou diretamente a produção audiovisual no país.
O cinema nacional resistiu
Entre 2016 e 2022, o cinema brasileiro resistiu como pôde, trabalhando com orçamento reduzido e enfrentando incertezas políticas. Ainda assim, entregou obras relevantes e de qualidade.
Alguns cineastas consolidados buscaram apoio externo e coproduções internacionais para viabilizar seus projetos. Mesmo nesse contexto adverso, surgiram produções importantes como Bacurau e Marighella, que mantiveram o Brasil no radar internacional.
Em 2022, com a volta de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, os investimentos em políticas de fomento à cultura foram retomados, editais foram reativados e novos aportes financeiros passaram a fortalecer novamente o setor audiovisual.
O novo cenário foi comentado por Kleber Mendonça Filho, diretor de O Agente Secreto, que afirmou em entrevista à AFP (Agência de Imprensa da França): “O cinema brasileiro voltou a se conectar à corrente com a eleição de Lula em 2022, depois de quatro anos em que a cultura, em termos práticos, foi extinta.”
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| Foto do Ator Wagner Moura e o diretor Kleber Mendoça Filho durante entrevista coletiva do elenco do filme O Agente Secreto, no hotel Renaissance. - Reprodução / Agência Brasil |
O trabalho precisa continuar
Os resultados internacionais dos filmes Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto não surgem de forma isolada. Eles são consequência de anos de investimento público, formação profissional e da trajetória consolidada de seus realizadores.
Tanto Kleber Mendonça Filho quanto Walter Salles possuem mais de duas décadas de carreira, o que contribui para a credibilidade internacional de seus projetos e facilita o interesse de distribuidoras estrangeiras.
Ainda assim, é difícil afirmar que o Brasil repetirá esse desempenho no Oscar nos próximos anos: premiações internacionais envolvem fatores que vão além da qualidade artística, como campanhas de divulgação, lobby e estratégias de mercado.
Por isso, o país não pode deixar a peteca cair. O momento é de consolidar o avanço, ampliar investimentos, fomentar novos talentos e estruturar uma política cultural contínua — não dependente de ciclos políticos.
| Wagner Moura em pôster de O Agente Secreto - Divulgação / Vitrine Filmes |
O maior desafio do cinema nacional
No próximo dia 15 de Março acontece a cerimônia do Oscar, e O Agente Secreto pode, quem sabe, trazer mais estatuetas para o Brasil. Mas, independentemente do resultado, o cinema nacional enfrenta desafios importantes.
O principal deles é reconquistar o público brasileiro. Embora o cinema nacional como um todo tenha perdido espectadores nos últimos anos, ainda enfrenta resistência dentro do próprio país. Mesmo com o aumento de público impulsionado por obras premiadas, a distância para as grandes bilheterias internacionais ainda é significativa.
Outro desafio é ampliar a presença no streaming, consolidando o cinema brasileiro nas plataformas digitais e expandindo seu alcance global — mas esse é um debate que merece um texto próprio.
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