MANAIRONS: Primeiras Impressões

Arte do jogo Manairons - Divulgação - JanduSoft

Em um mercado dominado por superproduções que apostam todas as fichas no realismo gráfico e em cenas grandiosas, Manairons surge quase como um respiro criativo. Desenvolvido e publicado pela JanduSoft, o título abraça suas limitações de escopo e transforma isso em identidade: em vez de competir com gigantes, prefere contar uma história própria, ancorada no folclore dos Pireneus e na sensibilidade típica de produções independentes que sabem exatamente o que querem ser.

A aventura coloca o jogador no controle de Nai, um pequeno manairó que desperta após séculos aprisionado. O conflito é simples, mas carrega um peso simbólico interessante: a vila de Vilamont foi tomada por Llorenç, cuja industrialização predatória transformou a região em um polo fabril sufocante, explorando os manairons como mão de obra forçada. É uma crítica direta ao progresso desenfreado, construída dentro de uma estética lúdica, mas nada ingênua.

A ambientação é um dos maiores trunfos do jogo. Inspirado em uma fábula catalã, Manairons inclusive pode ser jogado em catalão, reforçando o compromisso cultural da obra. Por outro lado, senti falta de legendas em português — algo que, espero, seja corrigido em futuras atualizações, pois o jogo merece alcançar mais jogadores.

O grande diferencial está nas mecânicas da flauta mágica de Nai. Em vez de partir para o combate tradicional, o progresso gira em torno de melodias que controlam aliados, manipulam objetos e neutralizam inimigos. Resolver quebra-cabeças usando música cria uma dinâmica que foge da agressividade comum do gênero. Existe um charme especial ao aprender novas canções e executá-las pelos botões do controle, evocando inevitavelmente memórias de The Legend of Zelda: Ocarina of Time. É possível decorar as melodias, mas o jogo também permite consultá-las no menu, mantendo a fluidez da experiência.

Vilamont é estruturada em áreas distintas, cada uma com desafios próprios e segredos bem distribuídos. O level design recompensa a curiosidade sem sobrecarregar o jogador com mapas poluídos ou marcadores excessivos. A progressão acontece de maneira orgânica, com a flauta servindo como ferramenta central para coordenar outros manairons em tarefas específicas, como mover estruturas pesadas ou abrir novos caminhos. A cidade industrial acaba funcionando como um grande quebra-cabeça interconectado.

Nem tudo é perfeito. Em alguns momentos, o posicionamento necessário para ativar alavancas ou interagir com elementos do cenário pode ser um pouco impreciso, exigindo pequenos ajustes até que o comando fique disponível. São detalhes técnicos que não comprometem a experiência, mas aparecem ocasionalmente.

Os pontos de descanso, chamados Puffs, funcionam como áreas seguras para salvar o progresso e recuperar energia, lembrando levemente as fogueiras de Souls-like ou até mesmo os acampamentos de Stellar Blade (nossa review, aliás, está AQUI), embora aqui os inimigos e puzzles não sejam reiniciados. A proposta de combate é deliberadamente não-letal: em vez de eliminar adversários, Nai os atordoa ou pacifica. Ainda assim, há sistema de mira travada, defesa e contra-ataque, garantindo que o jogador mantenha controle tático das situações.

Tecnicamente, a experiência foi muito estável em um PC mais potente, mas é curioso como o jogo parece ainda mais à vontade em dispositivos portáteis. Em máquinas como o Ayaneo Geek com Ryzen 7 6800U, o desempenho é excelente, reforçando o perfil do título como aquele tipo de indie perfeito para sessões mais intimistas.

No fim das contas, Manairons não pretende ser revolucionário. Ele prefere ser coeso. É um jogo de plataforma 3D que aposta em identidade cultural, criatividade mecânica e uma mensagem clara sobre tradição versus exploração industrial. Pode não ter orçamento de blockbuster, mas entrega algo que muitos projetos maiores acabam perdendo no caminho: personalidade. Para quem busca uma experiência focada, sincera e que respeita o tempo do jogador, é uma escolha certeira.

MANAIRONS está disponível para Steam, PlayStation 5, Xbox Series S|X, Nintendo Switch.

Agradecemos especialmente à distribuidora JanduSoft pela chave de review recebida via plataforma Keymailer.

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