ASSASSINS CREED: Entre o Pixel e a História de Maquiavel, Da Vinci e o Clã Borgia

Arte do jogo Assassin’s Creed: Brotherhood - Divulgação - Ubisoft

O Renascimento italiano é um dos períodos mais fascinantes da história humana, marcado por uma explosão de genialidade artística, avanço científico e, simultaneamente, uma brutalidade política sem precedentes. Para a comunidade nerd, esse cenário ganhou vida eterna através dos jogos Assassin’s Creed II e Assassin’s Creed: Brotherhood. No entanto, a ficção da Ubisoft não nasceu do nada. Ela bebe direto da fonte histórica de uma Itália fragmentada, dominada pela ambição da infame família Borgia, pelas análises frias de Nicolau Maquiavel e pela mente universal de Leonardo da Vinci.

Neste artigo do BansPodNerd, vamos cruzar a linha entre o pixel e a realidade, explorando o contexto histórico que inspirou a saga de Ezio Auditore, a ascensão e queda do clã Borgia, e como essa dinastia sangrenta foi retratada em duas produções televisivas imperdíveis: The Borgias (de Neil Jordan) e Borgia (de Tom Fontana). Prepare a sua hidden blade e venha conosco nessa viagem no tempo! 

A Itália Renascentista: Um Tabuleiro de Xadrez Humano

No final do século XV, a Itália não era um país unificado, mas sim um mosaico de cidades-estado (Florença, Milão, Veneza, Nápoles e os Estados Pontifícios) em guerra constante. É exatamente esse caldeirão de intrigas que Assassin’s Creed II captura com perfeição. O jogo nos joga no meio da conspiração dos Pazzi em Florença (1478) e nos leva até os canais de Veneza, mostrando que o poder era mantido através de assassinatos, subornos e alianças voláteis.

Nessa época, a Igreja Católica não era apenas uma instituição espiritual, mas uma potência geopolítica agressiva. Os Estados Pontifícios agiam como qualquer outro reino, e o trono de São Pedro era o prêmio máximo para as famílias aristocráticas mais ambiciosas da Europa.

O Papado Borgia: Rodrigo e a Corrupção do Sagrado

Nenhum período ilustra melhor a fusão entre poder secular e sagrado do que o papado de Rodrigo Borgia, que assumiu o nome de Papa Alexandre VI em 1492. Em Assassin's Creed II, Rodrigo é o Grão-Mestre da Ordem dos Templários, o vilão supremo que busca os Pedaços do Éden para dominar o mundo.

Na realidade histórica, Rodrigo Borgia não precisava de artefatos mágicos para ser aterrorizante. Ele comprou sua eleição papal por meio de simonia (suborno de cardeais) e transformou o Vaticano em um quartel-general para enriquecer sua própria família. Embora a história medieval e renascentista tenha sido escrita por seus inimigos (o que gerou muitos mitos sobre incesto e envenenamentos em massa), é inegável que Alexandre VI quebrou todos os votos de castidade, teve vários filhos reconhecidos e usou o tesouro da Igreja para financiar guerras particulares.

Cesare Borgia: O Protótipo do Tirano e o Vilão de Brotherhood

Se Rodrigo era a mente política, seu filho Cesare Borgia era o braço armado. Em Assassin’s Creed: Brotherhood, Cesare é retratado como um megalomaníaco brutal, obcecado por conquistar toda a Itália.

Historicamente, Cesare foi um dos generais mais implacáveis de sua era. Nomeado cardeal pelo pai aos 18 anos, ele largou a batina para se tornar Gonfaloneiro (comandante-chefe) dos exércitos papais. Cesare subjugou a região da Romanha com uma mistura de genialidade militar e crueldade cirúrgica. Ele era famoso por convidar seus rivais para banquetes de reconciliação apenas para estrangulá-los na mesma noite. Sua queda, contudo, foi tão rápida quanto sua ascensão: dependente do poder do pai, Cesare ruiu quando Rodrigo morreu subitamente em 1503, terminando seus dias exilado e morto em uma escaramuça na Espanha.

Nicolau Maquiavel: O Observador da Realidade

Tanto na história real quanto na franquia da Ubisoft, onde atua como um aliado de peso e mentor dos Assassinos, Nicolau Maquiavel é a mente intelectual mais brilhante do período. Como diplomata de Florença, Maquiavel teve a oportunidade de observar Cesare Borgia de perto durante suas campanhas militares.

Em vez de se horrorizar com a brutalidade de Cesare, Maquiavel ficou fascinado. Ele percebeu que, em um mundo caótico e violento, um governante precisava ser pragmático. Essa observação gerou sua obra-prima, O Príncipe. No livro, Maquiavel usa Cesare Borgia como o exemplo perfeito do líder que sabe ser "o leão e a raposa" (forte e astuto). A famosa máxima popularizada de que "os fins justificam os meios" sintetiza a política borgiana sob os olhos de Maquiavel: a violência era justificável se o resultado final fosse a estabilidade e a unificação do Estado.

Leonardo da Vinci: O Gênio Entre Dois Fogos

Em Assassin's Creed II, Leonardo da Vinci é o melhor amigo de Ezio, o cientista genial que decodifica as páginas do Codex e constrói engenhocas como a máquina de voar. Na vida real, a trajetória de Leonardo cruza-se de forma sombria com os vilões do jogo.

Em 1502, Leonardo da Vinci foi contratado por ninguém menos que Cesare Borgia para atuar como seu Arquiteto e Engenheiro Geral. Durante quase um ano, Leonardo viajou com as tropas de Cesare, desenhando mapas cartográficos revolucionários e projetando fortificações e armas de guerra devastadoras para o tirano. Foi nesse período que Leonardo conviveu diretamente com Maquiavel, que também estava na corte de Cesare. Essa tríade histórica — o gênio da arte (Da Vinci), o mestre da política (Maquiavel) e o monstro da guerra (Cesare) — convivendo no mesmo espaço é um dos momentos mais épicos da história ocidental.

Os Borgias na TV: Duas Visões de um Mesmo Inferno

A fascinação por essa era de excessos e ambição rendeu duas séries de televisão contemporâneas que abordam o tema por ângulos completamente diferentes. Se você terminou Assassin's Creed II e Assassin's Creed: Brotherhood e quer ver essa história em formato live-action, precisa conhecer essas produções (também pode ser sensacional assistir durante a jornada de Ezio):

# 1. The Borgias (Neil Jordan, Showtime)

Lançada em 2011 e estrelada pelo magnífico Jeremy Irons como Rodrigo Borgia, a versão de Neil Jordan é a mais "hollywoodiana" e estilizada. A série foca no drama familiar, no glamour decadente da corte papal e nas tensões sexuais e psicológicas entre os irmãos Cesare (François Arnaud) e Lucrezia (Holliday Grainger). É uma série visualmente deslumbrante, com figurinos impecáveis e uma atmosfera que dialoga muito de perto com a estética romântica e teatral de Assassin’s Creed II. Embora tome liberdades históricas para aumentar o drama, captura perfeitamente o carisma perigoso da família.

# 2. Borgia (Tom Fontana, Canal+)

Lançada no mesmo ano, a versão europeia criada por Tom Fontana (criador de Oz) é frequentemente considerada pelos historiadores como a mais precisa, crua e visceral. Estrelando John Doman como Rodrigo, esta produção não poupa o espectador da sujeira, das doenças, do fanatismo religioso e da violência brutal da Idade Média tardia. Enquanto a série de Jordan foca no romance e na tragédia pop, a de Fontana se aprofunda na geopolítica complexa, nos dogmas teológicos e na evolução psicológica realista de Cesare (Mark Ryder), mostrando como ele se transformou de um jovem clérigo frustrado no monstro militar que chocou a Europa.

Conclusão: O Legado de Sangue e Arte

A genialidade de Assassin's Creed foi envelopar essa complexa teia histórica em uma narrativa de ficção científica sobre Assassinos e Templários. Ao jogar a saga de Ezio ou ao assistir às séries de Jordan e Fontana, percebemos que a realidade histórica do Renascimento não precisava de muita maquiagem para parecer um roteiro de ficção: a ambição de Rodrigo, a fúria de Cesare, o pragmatismo de Maquiavel e a mente de Da Vinci já eram elementos dramáticos maiores que a vida.

No fim das contas, seja nos games ou nos livros de história, o período dos Borgia nos ensina que o conhecimento e a beleza do Renascimento floresceram não apesar da escuridão política, mas diretamente alimentados por ela.

Existem muitas obras (séries, livros e filmes) que retratam esse período, escolhi as que pessoalmente mais gostei. Se você gostou deste mergulho histórico e nerd, comente aqui embaixo: qual é o seu momento favorito de Ezio Auditore com Leonardo da Vinci? E qual das duas séries dos Borgia é a sua favorita? Quais obras você adicionaria na análise? Não se esqueça de compartilhar o post e assinar o feed do BansPodNerd!

Assassin's Creed II e Assassin's Creed: Brotherhood foram lançados originalmente para PlayStation 3, Xbox 360 e PC (Windows), além de uma versão de Assassin's Creed II para o sistema OS X (Mac). Anos mais tarde, ambos os jogos foram remasterizados e incluídos na coletânea The Ezio Collection, o que expandiu a disponibilidade dos títulos para os consoles PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch. Graças ao recurso de retrocompatibilidade, essas versões remasterizadas também podem ser jogadas no PlayStation 5 e no Xbox Series X/S, tornando a saga de Ezio Auditore acessível em praticamente todas as gerações de consoles desde 2009.

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