Existe um desafio enorme quando alguém decide criar um jogo
de James Bond. O personagem carrega décadas de filmes, atores icônicos, cenas
de ação memoráveis e uma identidade muito específica. Se exagerar na ação,
deixa de parecer James Bond. Se exagerar na espionagem, corre o risco de se
tornar lento demais para o público dos videogames. Em 007 First Light, a IO
Interactive encontrou uma solução curiosa: misturar a estrutura e a filosofia
de Hitman com o espetáculo cinematográfico de Uncharted. O resultado é uma das
melhores adaptações do agente secreto para os videogames em muitos anos.
Arte do jogo 007 First Light - Divulgação / IO Interactive
A história funciona como uma origem para o personagem. Aqui
acompanhamos um James Bond jovem, interpretado por Patrick Gibson, ainda longe
do agente experiente que conhecemos nos filmes. Com apenas 26 anos, Bond recebe
a missão que poderá finalmente lhe render o status 00 e a famosa licença para
matar. É uma abordagem interessante porque permite que o jogo apresente um
personagem em formação, cometendo erros, aprendendo e evoluindo ao longo da
campanha.
Logo nos primeiros minutos fica evidente o cuidado da IO
Interactive com a apresentação. O jogo é extremamente cinematográfico, repleto
de diálogos, sequências dirigidas e momentos que parecem ter saído diretamente
de uma superprodução da Amazon MGM Studios. A trilha sonora merece destaque
especial. Desde a música-tema até os temas que acompanham perseguições e cenas
de tensão, tudo remete ao melhor que a franquia James Bond já produziu no
cinema.
Visualmente, o trabalho também impressiona. Testado no PC, o
jogo apresenta gráficos excelentes e uma otimização acima da média. Mesmo em
hardware relativamente potente, foi possível jogar com configurações elevadas
sem grandes problemas de desempenho.
Na estrutura das missões, a influência de Hitman aparece o
tempo inteiro. Embora a campanha seja predominantemente linear, existem
diversos momentos em que os cenários se expandem e oferecem múltiplas formas de
atingir os objetivos. Bond pode utilizar objetos do ambiente para criar
distrações, abrir caminhos alternativos ou manipular situações a seu favor. A
sensação de improvisação e criatividade que tornou Hitman tão popular está
presente aqui, mas de forma mais acessível.
Essa filosofia também aparece nos equipamentos. Antes de
cada missão, o jogador pode selecionar dois dispositivos Q entre várias opções
disponíveis. Cada ferramenta abre possibilidades diferentes de abordagem,
permitindo criar estratégias específicas para cada situação.
O stealth é uma das bases da experiência. Nos capítulos
iniciais o jogo é relativamente permissivo, permitindo que o jogador se adapte
às mecânicas. Conforme a campanha avança, porém, a infiltração se torna cada
vez mais importante. Em vários momentos, tentar resolver tudo na força bruta
simplesmente não funciona. Curiosamente, o sistema lembra não apenas Hitman,
mas também elementos vistos nos antigos Assassin’s Creed, especialmente na
forma como o jogador observa rotas, identifica padrões de patrulha e utiliza o
ambiente para permanecer escondido.
Felizmente, o sistema de checkpoints é bastante generoso. O
jogo costuma registrar o progresso com frequência durante sequências furtivas,
evitando a frustração de repetir grandes trechos após um erro.
Quando a discrição falha, entra em cena o combate. E aqui a
inspiração muda completamente. As lutas corpo a corpo lembram bastante a série
Batman Arkham. Durante os confrontos, é necessário ficar atento aos ataques
inimigos e realizar contra-ataques no momento correto. O sistema funciona bem,
mas possui um ritmo mais lento e deliberado do que o visto nos jogos do
Cavaleiro das Trevas.
Existe, porém, um detalhe que pode dividir opiniões: Bond é
surpreendentemente frágil. Poucos golpes são suficientes para derrubá-lo, o que
torna algumas lutas mais punitivas do que o esperado. Em certos momentos isso
aumenta a tensão; em outros, acaba gerando um pouco de frustração.
As armas de fogo aparecem com menos frequência do que muitos
jogadores talvez imaginem. Afinal, estamos falando de James Bond, não de Nathan
Drake. Quando o combate armado acontece, entretanto, ele é bastante competente.
O recurso de Bullet Time ajuda a criar momentos cinematográficos e reforça a
sensação de estar participando de uma sequência clássica da franquia.
Outro aspecto que ajuda a vender essa fantasia são os
veículos. Além do tradicional Aston Martin, o jogo traz modelos da Jaguar, Land
Rover e outros meios de transporte utilizados em algumas das melhores cenas de
ação da campanha. Existem momentos genuinamente espetaculares que parecem ter
sido retirados diretamente de um filme da série.
Nem tudo é perfeito. O principal problema técnico que
encontrei foram os tempos de carregamento após morrer. Mesmo utilizando um SSD
NVMe, alguns loadings pareceram estranhamente longos para os padrões atuais.
Não chega a comprometer a experiência, mas é algo que chama atenção em um jogo
tão refinado tecnicamente.
A partir da metade da campanha, porém, qualquer crítica
acaba ficando em segundo plano diante da qualidade da narrativa. A história
cresce de forma impressionante, os personagens ganham profundidade e algumas
sequências de ação se tornam verdadeiramente memoráveis. É nesse momento que
007 First Light deixa de ser apenas um bom jogo de espionagem e se transforma
em uma excelente aventura.
Até mesmo as surpresas e participações especiais funcionam.
Sem entrar em spoilers, fãs de memes de redes sociais certamente vão reconhecer
um rosto bastante conhecido em determinado momento da campanha.
No fim das contas, continuo com a mesma impressão que tive
nas primeiras horas: 007 First Light é um casamento entre Hitman e Uncharted.
Pessoalmente, eu gostaria que ele pendesse um pouco mais para o lado de
Uncharted, oferecendo mais momentos de ação direta e menos foco em infiltração.
Mas talvez justamente por não seguir esse caminho o jogo consiga capturar tão
bem a essência de James Bond.
A IO Interactive entendeu que Bond não é apenas um herói de
ação. Ele é um espião, um manipulador, alguém que prefere resolver problemas
com inteligência antes de sacar a arma. Ao respeitar essa identidade e
combiná-la com uma apresentação cinematográfica impecável, o estúdio entrega
uma das melhores experiências já produzidas para a franquia.
007 First Light é elegante, emocionante, visualmente
impressionante e extremamente fiel ao espírito do personagem. Uma aventura que
honra o legado de James Bond e que merece ser lembrada ao lado dos grandes
jogos do ano.
007 First Light foi lançado em 27 de maio de 2026 para PC,
Xbox Series X/S e PlayStation 5, a versão do Nintendo Switch 2 vai ser lançada
ainda esse ano.
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