O anúncio do remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time para o Nintendo Switch 2 reacendeu uma chama que nunca esteve completamente apagada. Para muitos - incluindo este que vos fala - esse foi o empurrão que faltava para revisitar um dos jogos mais importantes da história dos videogames. O problema é que existe uma diferença enorme entre se lembrar de Ocarina of Time e voltar a jogá-lo em 2026.
A verdade é que o jogo envelheceu - não em sua narrativa, não
em suas dungeons e muito menos em sua influência sobre a indústria. O que
envelheceu foram seus controles, e até mesmo a excelente versão de Nintendo 3DS (que
modernizou gráficos e trouxe melhorias de qualidade de vida) ainda carrega
limitações difíceis de ignorar atualmente. A câmera, em especial, é um dos
maiores obstáculos para quem tenta revisitar essa obra-prima sem o filtro da
nostalgia.
Foi justamente aí que descobri o Ship of Harkinian,
provavelmente a forma definitiva de jogar Ocarina of Time hoje (pelo menos até
a chegada do remake).
Desenvolvido pelo grupo Harbour Masters 64, o projeto é
muito mais do que um simples emulador. Trata-se de um port nativo para PC
construído a partir do trabalho de decompilação do código original. Isso
permite que o jogo receba melhorias modernas sem perder sua essência. Estamos
falando de suporte a widescreen, altas resoluções, taxas de quadros elevadas,
controles modernos, personalização completa dos comandos, suporte a giroscópio
e uma infinidade de opções que aproximam Ocarina de Time dos padrões atuais.
O mais impressionante é que basta ativar alguns recursos
para a experiência mudar completamente. O destaque absoluto é a câmera livre.
Parece um detalhe pequeno, mas é uma transformação gigantesca já que, pela primeira
vez, Ocarina of Time deixa de parecer um jogo preso em 1998 e passa a se
comportar de forma muito mais próxima dos títulos de ação e aventura modernos.
É uma mudança tão impactante que chega a ser difícil imaginar voltar para as
versões originais depois de experimentá-la.
Outro ponto que me surpreendeu foi o suporte a mods. Existe
uma comunidade extremamente ativa produzindo melhorias para o jogo, incluindo
pacotes de texturas em alta definição inspirados na versão de 3DS.
Utilizei justamente esse mod na minha instalação e o resultado ficou
fantástico. É quase como encontrar um meio-termo entre a direção artística
clássica do Nintendo 64 e o visual refinado do portátil da Nintendo (link do
vídeo aqui).
A instalação exige um pouco de trabalho, mas nada absurdo. O
Ship of Harkinian pode ser baixado gratuitamente no site oficial ou no GitHub
dos desenvolvedores (link para o site aqui). Como o projeto não
distribui arquivos do jogo, é necessário fornecer uma ROM de Ocarina of Time,
seja da versão de 64 ou Game Cube.
Depois disso, o processo é simples. Com a ROM e o programa na mesma pasta, basta executar o Ship of Harkinian, apontar o arquivo do jogo e deixar que ele faça o restante do trabalho. A partir daí, vale a pena investir alguns minutos explorando os menus de configuração. É justamente neles que mora a mágica: ajustes de resolução, framerate, câmera, controles, melhorias gráficas e instalação de mods.
Testei tudo em um portátil Ayaneo Geek, equipado com um
Ryzen 7 6800U e tela de 800p. Mesmo nessa resolução relativamente modesta, o
resultado ficou excelente. O jogo roda de forma impecável e visualmente
impressiona muito mais do que eu esperava. Em um PC convencional é possível
elevar a experiência para resoluções como 1440p ou 4K sem exigir hardware de
ponta.
Outro detalhe interessante é que o projeto não se limita ao
Windows. O Ship of Harkinian também está disponível para Linux e macOS, além de
possuir versões para Nintendo Switch desbloqueado e Wii U modificado. A
comunidade ainda conseguiu levar o projeto para dispositivos improváveis, como
o popular portátil R36S, graças ao trabalho de criadores de conteúdo como
Fredzzi, que disponibilizam tutoriais completos para os interessados (link
do vídeo aqui).
Mas talvez o aspecto mais admirável seja a filosofia do
Harbour Masters 64. O grupo vem se dedicando a preservar clássicos do 64 através de ports nativos modernos. Além de Ocarina of Time, existem projetos
envolvendo Majora's Mask, Star Fox 64, Mario Kart 64 e Super Mario 64. É um
trabalho de preservação que muitas vezes acaba entregando experiências melhores
do que as próprias versões oficiais disponíveis atualmente (link para o site
aqui).
No fim das contas, o Ship of Harkinian não substitui o
remake que está chegando ao Switch 2. São propostas diferentes. Mas enquanto
esperamos a nova versão, ele oferece algo extremamente valioso: a possibilidade
de revisitar uma das maiores obras-primas da história dos videogames sem
precisar lutar contra as limitações de hardware e design de quase três décadas
atrás.
Se você estava procurando uma desculpa para voltar a Hyrule
antes do remake, eu diria que encontrou a melhor possível.

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